Polarização política no Brasil: de quem é o país enquanto a gente briga?

Tem hora que eu olho para o Brasil e tenho a sensação de que a gente tá vivendo uma Revolução Francesa barata. Essa polarização política no Brasil não é apenas barulho: ela interfere na maneira como enxergamos problemas concretos. Todo mundo sabe dizer quem é de direita, quem é de esquerda, quem seria comunista, quem estaria defendendo a família. Mas, no meio dessa gritaria, eu queria entender uma coisa: quem está pensando no país que vai sobrar para nós?
Os nomes direita e esquerda nasceram na França revolucionária, nas disputas sobre o poder do rei. Havia questões concretas ali: autoridade, privilégios, representação. Por aqui, parece que a gente se apegou tanto aos rótulos que passou a tratar a política como uma obrigação de defender alguém. A escola pode continuar ruim, a empresa pode fechar, mas o importante é não dar razão ao outro lado.
Quando a política vira torcida
É só observar o que chega até nós. Lula faz uma declaração desastrada sobre mulheres aprenderem a receber toque desde pequenas. A frase vira ataque, defesa, indignação. Ele estava falando de exames médicos, e esse contexto precisa acompanhar a crítica. Eu acho a maneira de falar grosseira. Ainda assim, transformar aquilo numa defesa de abuso seria falsificar o que aconteceu.

Do outro lado, reaparece a mansão de quase seis milhões de reais comprada por Flávio Bolsonaro em 2021. Sua defesa mencionou, entre outras fontes, rendimentos da advocacia para explicar a capacidade financeira. É legítimo cobrar explicações e examinar documentos. Também surgem reportagens sobre supostos encontros privados, imediatamente absorvidas pela disputa política. Cada torcida já parece saber o que quer acreditar.
Essas histórias têm gravidades e naturezas diferentes. O que me incomoda é perceber como cada lado escolhe o que merece indignação e o que merece desculpa. A cobrança muda conforme o nome de quem aparece na notícia.
O financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, por Daniel Vorcaro, por exemplo, virou objeto de investigação apoiada pela PGR. A campanha de Flávio afirma que ele pediu patrocínio, mas não recebeu nem administrou os recursos. É justamente por envolver dinheiro, influência e possíveis contrapartidas que esse assunto merece apuração séria, com consequência para o que for comprovado.
E Vorcaro não cabe nessa divisão confortável entre dois lados. O Planalto confirmou um encontro dele com Lula, mas negou o relato de presente em uísque. Mensagens também mencionam um pedido de desconto em hotel feito por terceiros em nome de Nunes Marques, que nega ter pedido favores. Isso não permite concluir que alguém vendeu uma decisão. Permite cobrar transparência sobre essas relações. O cidadão precisa conseguir saber onde termina a convivência privada e começa um conflito de interesses.
Poder, influência e liberdade de imprensa
A preocupação aumenta quando chega à liberdade de informar. No caso do jornalista Luís Pablo, dados extraídos de aparelhos apreendidos levaram à identificação de uma fonte. A Abraji denunciou violação do sigilo constitucional. Moraes justificou a investigação pela suspeita de crimes. Essa justificativa também precisa ser examinada. Quem vai denunciar um poderoso se acreditar que sua conversa com um jornalista poderá acabar expondo sua identidade?
O bloqueio do X, em 2024, foi determinado por descumprimento de ordens e outras exigências legais. Depois, houve autorização para o retorno. Ainda assim, a proporcionalidade de tirar uma rede inteira do ar pode ser discutida. E vale lembrar: Moraes foi indicado por Temer. Nem as nomeações cabem nessa explicação de atribuir tudo a um único partido.
Montesquieu já escrevia, antes da Revolução Francesa, que o poder precisa encontrar limites no próprio poder. Eu penso nisso quando vejo uma autoridade tratada como intocável porque, naquele momento, está enfrentando o inimigo da nossa preferência. Democracia exige fiscalização também sobre quem a gente apoia.
O Brasil de quem precisa trabalhar amanhã
Enquanto isso, tem a vida de quem precisa trabalhar amanhã. As apostas esportivas foram legalizadas sob Temer, em 2018, e o mercado foi regulamentado sob Lula. Agora, em 25 de setembro, Lula editou uma medida provisória para proibir as bets. Depois de toda essa trajetória, qual foi o planejamento? Como o efeito sobre as famílias pesou nessas decisões?
Também seria errado dizer que todo o dinheiro vai embora: a legislação exigia sede e administração no Brasil. Minha pergunta é quanto esse modelo devolve à sociedade. Eu gostaria de ver um debate sério sobre turismo, hotelaria e até cassinos integrados a complexos turísticos, se os benefícios justificarem os custos. Isso depende de lei, fiscalização e proteção contra o vício. Precisa ser discutido com números na mesa.
Na reforma tributária, o prestador de serviço quer saber se a conta vai fechar. 2026 ainda é um ano de teste, e os efeitos variam conforme atividade, regime e créditos. Quem depende muito de mão de obra tem uma preocupação concreta: salários não geram créditos como as aquisições tributadas. Essa conversa exige explicação e previsibilidade para quem mantém uma empresa funcionando.
Educação, indústria e o futuro que estamos perdendo
Eu queria ver a mesma energia das brigas políticas aplicada à educação. No Pisa de 2022, 84% dos estudantes sul-coreanos atingiram ao menos o nível básico de matemática. No Brasil, 27%. Essa distância deveria nos tirar o sono. A gente discute o futuro enquanto uma parte enorme dos nossos jovens fica sem condições de participar dele.
E já desperdiçamos demais. A Petrobras reconheceu, no balanço de 2014, perdas de R$ 6,2 bilhões ligadas à corrupção. Isso não apaga a conquista tecnológica do pré-sal, que continua produzindo riqueza. Torna ainda mais incômoda a pergunta sobre o que fizemos com as oportunidades. Quanto dessa capacidade poderia ter virado infraestrutura, pesquisa e uma vida melhor?
Na indústria, também não dá para dizer que o Brasil nunca avançou. Avançou, e muito. No fim dos anos 1980, reformadores chineses estudaram a experiência brasileira, como registra a pesquisa de Isabella Weber. Depois, nossas trajetórias se afastaram, e a indústria de transformação brasileira perdeu peso. Hoje a gente olha para a China e pergunta como ela chegou lá, esquecendo de perguntar por que tantas capacidades nossas ficaram pelo caminho.
Agora vêm as terras raras, a inteligência artificial, outra transformação econômica. O Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo. Mas minério no chão, sozinho, não garante tecnologia, salário nem soberania. Vamos desenvolver processamento, pesquisa e indústria aqui? Vamos formar gente capaz de criar tecnologia? Ou vamos comemorar a próxima exportação enquanto compramos de volta o conhecimento que não construímos?
De quem é o país, afinal?
É aí que eu volto à democracia. Quando alguns têm acesso direto ao poder e milhões só conseguem escolher a torcida, existe uma distância enorme entre a promessa democrática e a vida real. Até que ponto as prioridades são nossas? Quanto delas é decidido em negociações entre grupos que a população mal consegue enxergar?
Às vezes, a sensação é que estão literalmente cagando para nós. E que nós ainda estamos brigando para decidir qual deles merece nossa defesa.
Eu não quero passar mais vinte anos nessa conversa. Quero saber o que vai ficar de pé quando ela acabar.
