REPASSE: FINANCIAR UM VEÍCULO COM ALTA QUILOMETRAGEM É UM BOM NEGÓCIO?

Um fato curioso sobre a mesa de negociação da UAI Veículos — a loja de carros mais hypada do Brasil em 2026 — é que são raras as vezes em que vemos o nosso querido pastor Evandro negociar um veículo de repasse diante das câmeras. Agora, financiar um carro de repasse? Isso, meus amigos, eu realmente nunca tinha visto ele fazer.
Tudo o que sabemos sobre a negociata é que o cliente possuía um GM Corsa, que entrou na briga avaliado em R$ 17 mil. Como eu já conheço um pouquinho da forma de trabalhar do pastor Evandro, minha aposta é que estamos falando de um Corsa Hatch 1.0 2010. Posso estar errado? Naturalmente. Mas alguma coisa me diz que não estou tão longe assim.
De qualquer maneira, não vamos nos prender ao Corsa, porque ele é apenas o coadjuvante desta história. No artigo de hoje, o assunto principal é outro: afinal, o que significa comprar um carro de repasse? E, principalmente, financiar um veículo de repasse com alta quilometragem é coragem, oportunidade ou loucura?
COROLLA XEI 2013
COROLLA XEI 2013
O famoso “carro de véio”, como é carinhosamente conhecido em minha cidadezinha caipira, Pirassununga, no interior de São Paulo. A cidade é praticamente empesteada de Corollas — e existe uma explicação para isso: boa parte dos moradores é formada por aposentados das Forças Armadas. E, aparentemente, existe alguma regra não escrita dizendo que, depois da aposentadoria, você precisa comprar um Corolla prata, colocar uma almofadinha no banco e dirigir tranquilamente pela faixa da esquerda.

Na minha opinião, o Corolla sempre foi o principal concorrente do Honda Civic e, nessa disputa, eu vou de Corolla. Gosto é gosto, e eu respeito quem escolheria o Civic, mas é impressionante como a indústria japonesa consegue manter seus carros entre os líderes de diferentes segmentos há décadas. Os japoneses podem até perder no tamanho médio da população, mas, quando o assunto é construir carro confiável, os homens parecem jogar no modo carreira com todos os atributos no máximo.

O Corolla XEi 2013 é equipado com motor 2.0 Dual VVT-i flex, aspirado, de quatro cilindros e 16 válvulas. Ele entrega até 153 cv e 20,7 kgfm de torque com etanol, ou 142 cv e 19,8 kgfm com gasolina. O conjunto trabalha com um câmbio automático sequencial de quatro marchas e tração dianteira. Embora essa transmissão já pareça um pouco jurássica diante dos câmbios atuais, ela é conhecida pela robustez e combina bem com a proposta confortável do sedã. O modelo também possui direção elétrica, freios a disco nas quatro rodas com ABS, rodas de liga leve aro 16 e um generoso porta-malas de 470 litros. Na versão XEi, ainda aparecem itens como bancos de couro, ar-condicionado automático, sensor de estacionamento, acendimento automático dos faróis e retrovisor interno eletrocrômico. Em resumo: não é exatamente uma nave tecnológica, mas entrega conforto suficiente para o aposentado chegar ao banco, ao mercado e ao baile com muita dignidade.

Apesar da fama de inquebrável, o Corolla não recebeu nenhum tipo de bênção (e disso a gente entende) mecânica diretamente do Japão. Pesquisando relatos de proprietários, as reclamações que mais merecem atenção envolvem folgas e batidas na caixa de direção, ruídos na suspensão dianteira e desgaste de buchas, bandejas, coxins e amortecedores.
Também aparecem casos envolvendo compressor do ar-condicionado, bobinas de ignição, sonda lambda, coxins do motor e alguns barulhos de acabamento. Nada disso significa que todo XEi 2013 apresentará esses defeitos, mas, em um exemplar rodado, são pontos que precisam ser examinados com carinho — principalmente porque o Corolla pode até demorar para quebrar, mas, quando quebra, costuma se lembrar de que não é Corsa na hora de cobrar pelas peças.
REPASSE
Acho pouco provável que o leitor que chegou até aqui não saiba como funciona a modalidade de repasse. Mas, até o início deste ano, eu mesmo não sabia o que significava catira no mundo dos carros, então talvez esta explicação seja útil para alguém.

No comércio automotivo, o repasse costuma ser utilizado quando um veículo não se encaixa no perfil da loja. Pode ser um carro antigo demais, muito rodado, com detalhes para fazer ou simplesmente diferente do tipo de automóvel que aquele estabelecimento costuma oferecer ao seu público. Em vez de investir na preparação e colocá-lo no estoque principal, o lojista negocia o veículo por um valor mais baixo, geralmente com outro comerciante ou profissional do ramo, deixando bem claras as condições em que ele se encontra.

Mas e financiar um carro de repasse com alta quilometragem? Aqui é que, na minha opinião, mora o perigo. Eu já acho uma loucura financiar determinados carros em condições normais. Agora, assumir uma dívida de vários anos por um veículo que já rodou bastante e possui um risco maior de exigir manutenção? Essa me parece a fórmula mágica para fazer as coisas darem errado.
O problema não é apenas a quilometragem, porque um carro bem cuidado pode chegar muito longe. A verdadeira questão é financiar sem conhecer o histórico de manutenção, sem realizar uma boa avaliação mecânica e sem reservar dinheiro para os reparos que naturalmente podem aparecer. A parcela continuará chegando todos os meses — esteja o Corolla passeando tranquilamente por aí ou descansando no elevador da oficina. E poucas coisas devem ser mais tristes do que pagar prestação de um carro que você não consegue usar.
Mas, enfim, cada um é cada um, né? Eu, particularmente, pisaria no freio antes de entrar nessa negociata.
Te vejo no próximo artigo.
