O PODER DA CERVEJA: UM MECÂNICO, UM DENTISTA E UM RECÉM BLOGUEIRO NO MESMO ESPAÇO

Depois de mais de 100 dias ininterruptos postando Shorts — sim, mais de 100 dias sem falhar um único dia — uma coisa ficou muito clara: o Pastor Evandro gosta de negociar carros, e eu gosto de editar vídeos. A diferença é que, infelizmente, só um dos dois hobbies costuma dar dinheiro.
Enfim.
Ontem, numa terça-feira, feriado evangélico, eu passei boa parte do dia fazendo o que faço quase todos os dias: garimpar um corte do meu Malvado Favorito. Quando o relógio marcava por volta das 16h30, o celular vibrou.
— Dr. Téo: “Tô aqui no mecânico trocando o óleo do Fusca. Vamos tomar uma cerveja?”
A patroa não gostou muito da ideia. Na verdade, ela não gostou absolutamente nada, Mas fazia tempo que eu não sentava para tomar uma cervejinha com o meu amigo dentista. Então fiz o que qualquer cidadão faria diante de um convite desses: coloquei uma bermuda, um chinelão e fui ao encontro daquele que, sem exagero nenhum, é o implantodontista mais famoso de Campinas – SP.
MAURO MECÂNICO
Eu não fazia a menor ideia de que uma cerveja com palheiro em algum boteco pudesse se transformar em uma aula de mecânica, com direito a reflexões sobre o cenário atual da vida de quem deseja ter uma empresa no Brasil e sobre as dificuldades enfrentadas pelo pequeno empreendedor.
Embora já tivesse passado várias vezes em frente à oficina do mestre Mauro, nunca havia parado ali. Inclusive, quando cheguei, já fui logo cobrando o Dr. Téo para tomarmos rumo ao boteco, afinal, meu tempo de alforria era curto, curtíssimo.
O que eu não sabia era que o magnânimo Dr. Téo era amigo do Mauro Mecânico há 40 ANOS e já estava descendo as escadas do escritório do homem com uma Heineken na mão. No fim das contas, a cerveja foi ali mesmo, na oficina.

Não demorou muito e eu, curioso como sou, já comecei a fazer várias perguntas pro homem, que se mostrou disposto a tirar minhas dúvidas e ainda tomou uma latinha de Brahma enquanto trocava o óleo do fusca azul do Dr. Teófilo.
ELÉTRICOS E CÂMBIOS
— Senhor Mauro, o que você diria para alguém que quer entrar no ramo da mecânica hoje?
R. É um ramo complicado.
Aproveitei o gancho e fui um pouco mais longe:
— O senhor acredita que quem começar a se especializar em carros elétricos daqui pra frente vai ganhar dinheiro?
R. Não. Aquilo não dá manutenção. Quebrou, pode jogar fora. O preço da bateria custa metade do preço do carro. Inclusive, antes de comprar um elétrico, a pessoa deveria pensar bem.
Começamos a tomar nossa cervejinha e, conforme a conversa foi fluindo, eu logo emendei outra pergunta:
— O senhor pode me explicar como funciona o câmbio Dualogic? Sim, eu sou leigo.
Mauro explicou:
R. O câmbio Dualogic é como os outros câmbios, mas, ao invés da alavanca que a pessoa puxa quando usa o manual, tem um robozinho que fica fazendo essa função.
Em seguida, Mauro me mostrou como funciona o câmbio por acionamento hidráulico e usou como exemplos uma Blazer e um HB20. E aí veio uma daquelas constatações que me fizeram pensar: a Chevrolet Blazer brasileira foi produzida até 2012, justamente o ano em que o primeiro HB20 chegou ao mercado.

Ou seja: entre uma Blazer e um HB20, ambos usam o princípio da física hidráulica (com cilindro mestre no pedal). Embora o projeto mecânico, o formato das peças, as marcas e o funcionamento do atuador do câmbio são completamente diferentes. A tecnologia que o Mauro estava me mostrando continuava seguindo o mesmo princípio físico da coisa. Engraçado pensar nisso. Um carro que já estava saindo de linha e outro que acabava de chegar às ruas, separados por uma mudança de geração, mas ainda carregando conceitos mecânicos que permaneciam ali, firmes e funcionando.
DOUTOR TEÓFILO
Aqui, a conversa já tinha descambado de vez.
O meu dentista predileto — diga-se de passagem, a única pessoa que me deu uma oportunidade de estagiar quando eu estava fazendo meu curso de Técnico em Saúde Bucal — vive hoje, segundo ele, a melhor fase de sua vida.
Depois de tomarmos todas — duas latas cada um —, Téo convidou Mauro, que já vive uma vida solo há quase dez anos, para comer um lanche em uma bimboca da qual, sinceramente, não me recordo o nome.
Já eram 18h30 e eu, apesar de querer continuar tomando mais umas com meus colegas, tomei o rumo de casa.
Antes, porém, passei no Maravilhas do Lar — um famoso 1,99 aqui de Campinas — e comprei um brinquedo do Buzz Lightyear para o meu filho, que já desejava aquilo havia muito tempo.

E foi assim que terminou a história.
Entre uma cerveja, uma oficina, um câmbio Dualogic, histórias de vida, problemas de casamento e um Buzz Lightyear comprado no caminho de casa, aquela tarde que deveria ser apenas uma saída rápida acabou virando um artigo.
Fim da história, meus compadres.
Até a próxima.
