DFM BOX URBAN: NOVO ELÉTRICO CHINÊS PODE DAR TRABALHO PARA BYD E GEELY — MAS FALTA O PRINCIPAL

Mais uma marca chinesa está chegando ao Brasil. Eu sei, eu sei… já parece até abertura de franquia de farmácia. Você vira uma esquina e aparece uma nova. Desta vez, porém, a novata não é exatamente uma novata. Trata-se da Dongfeng, empresa estatal fundada em 1969 e que vai vender seus automóveis por aqui usando três letrinhas bem mais fáceis de pronunciar: DFM.
A marca mostrou seus primeiros carros no Festival Interlagos e um deles me chamou bastante a atenção: o DFM Box Urban, um hatch 100% elétrico que chega com a delicada missão de cutucar BYD Dolphin Mini, Geely EX2, GAC Aion UT e companhia. E o bichinho não veio pelado, não. Tem câmera 360°, seis airbags, piloto automático adaptativo, banco elétrico com memória, portas sem moldura e uma lista de equipamentos bem interessante.
Só existe um pequeno detalhe: até o momento em que escrevo este artigo, a DFM ainda não anunciou o preço. E sem preço, meus compadres, até Ferrari pode ser chamada de bom negócio.
QUEM É ESSA TAL DE DFM?
Embora o nome ainda seja praticamente desconhecido do brasileiro, a Dongfeng está longe de ser uma fabricante que nasceu ontem em uma garagem com três engenheiros, dois notebooks e muita fé. A empresa foi fundada em 1969, na China, e hoje é um dos grandes grupos automotivos daquele país, acumulando ao longo de sua história parcerias com fabricantes como Nissan, Honda e Stellantis.

No Brasil, a companhia decidiu apresentar sua operação de automóveis como DFM. Os dois primeiros modelos serão o Box Urban e o Vigo Urban Plus, um SUV também elétrico. E a estreia não será exatamente tímida: a operação começa com 60 concessionárias distribuídas por 21 estados e pelo Distrito Federal, uma estrutura considerável para quem ainda precisará ensinar boa parte dos brasileiros a falar seu nome.
Inicialmente, os carros serão importados da China, embora existam planos para ampliar a gama e produzir veículos no Brasil futuramente. Mas essa parte eu prefiro deixar no campo das promessas. Primeiro precisa vender carro, entregar peça, atender cliente e fazer a operação funcionar. Depois a gente conversa sobre fábrica, nacionalização e aquelas apresentações bonitas com telão de LED.
PEQUENO POR FORA, MAS NEM TANTO POR DENTRO
O Box Urban mede 4,02 metros de comprimento, 1,81 m de largura e 1,57 m de altura, com generosos 2,66 metros de entre-eixos. Na prática, ele tem tamanho de hatch compacto, mas aproveita bem o espaço por ter uma plataforma elétrica. Sem um motorzão ocupando a frente e sem túnel central atravessando a cabine, sobra mais espaço para os passageiros.

O porta-malas possui 309 litros. Não é um galpão logístico, mas também não obriga o proprietário a escolher entre levar a mala ou a sogra. Para o uso urbano e pequenas viagens, parece suficiente. O visual também foge um pouco daquela receita de elétrico com cara de eletrodoméstico: há faixa de LED na dianteira, maçanetas embutidas e portas sem moldura nos vidros.
Eu achei simpático. Não é um carro que vai me fazer colocar um pôster na parede do quarto — até porque minha esposa provavelmente pediria algumas explicações —, mas está longe de ser feio.
MOTOR, BATERIA E AUTONOMIA
O DFM Box Urban utiliza motor elétrico dianteiro de 95 cv e 16,3 kgfm de torque, com velocidade máxima limitada a 140 km/h. Não é um foguete e também não precisa ser. A proposta é andar na cidade, levar a família, pegar estrada eventualmente e voltar para casa sem transformar cada semáforo em eliminatória de campeonato de arrancada.
A bateria LFP possui 43,89 kWh de capacidade, enquanto a autonomia homologada pelo Inmetro é de 275 quilômetros. E antes que alguém apareça dizendo que na China ele percorre mais de 400 km, calma lá. Os ciclos de medição são diferentes, e o número que interessa para comparação no mercado brasileiro é justamente o homologado por aqui.
No carregamento, ele aceita até 6,6 kW em corrente alternada e chega a 88 kW em corrente contínua. Segundo a fabricante, é possível passar de 30% para 80% em aproximadamente 30 minutos em condições adequadas. Também existe V2L, tecnologia que permite utilizar a bateria para alimentar equipamentos externos. Traduzindo: o carro pode virar uma tomada gigante. Porque sofrer no acampamento tudo bem, mas ficar sem café já é humilhação.
É NOS EQUIPAMENTOS QUE O BOX MOSTRA OS DENTES
Aqui a coisa começa a ficar interessante. O Box Urban terá painel digital de 5 polegadas, central multimídia de 12 polegadas, ar-condicionado automático, carregador de celular por indução, iluminação ambiente, sistema de áudio com seis alto-falantes e banco do motorista com regulagem elétrica, memória e função de boas-vindas.
Por fora, aparecem rodas de liga leve aro 17, faróis de LED, retrovisores aquecidos e com rebatimento elétrico, vidros com função de um toque, maçanetas retráteis e as portas sem moldura. É uma lista respeitável, principalmente considerando que estamos falando de um hatch elétrico que pretende disputar espaço entre os modelos mais acessíveis do segmento.

Mas também não vamos transformar o bichinho numa nave espacial sem defeitos. Aparentemente, não haverá limpador no vidro traseiro nem estepe, apenas kit de reparo. Também não existem saídas de ar-condicionado para quem viaja atrás, e o volante possui ajuste de altura, mas não de profundidade. Nada disso destrói o carro, porém são detalhes que precisam entrar na conta.
SEGURANÇA E GARANTIA CHAMAM ATENÇÃO
O pacote de segurança talvez seja um dos principais argumentos do DFM Box Urban. São seis airbags, controles de estabilidade e tração, monitoramento da pressão dos pneus, câmera 360°, sensores traseiros e diferentes assistências à condução, incluindo piloto automático adaptativo, alerta de colisão frontal, frenagem automática de emergência e assistente de permanência em faixa.
Durante muito tempo, o brasileiro pagou caro em carro com dois airbags, rádio que parecia ter saído de uma calculadora e acabamento feito com o mesmo material da lixeira da cozinha. A chegada dessas novas marcas está obrigando fabricantes tradicionais a rever equipamentos e preços. Não precisa virar torcedor de montadora chinesa para reconhecer que concorrência, nesse ponto, é excelente para quem compra.
A garantia também impressiona: são sete anos ou 300 mil quilômetros para o veículo e dez anos, sem limite de quilometragem, para bateria de tração, motor elétrico e sistemas eletrônicos de controle. Maaaaaaaaas… garantia bonita no folder e pós-venda funcionando são duas coisas completamente diferentes. O verdadeiro teste começará quando aparecer carro precisando de peça e cliente esperando atendimento.
AFINAL, QUANTO VAI CUSTAR?
Essa é a pergunta de um milhão — ou melhor, espero que de uns cem mil. Até agora, a DFM não divulgou oficialmente o preço. Existem apostas colocando o Box Urban perto dos R$ 100 mil, enquanto outras estimativas chegam aos R$ 120 mil ou R$ 130 mil. Palpite por palpite, eu também gostaria de pagar R$ 49.990, ganhar carregador instalado em casa e ainda receber uma cesta básica no porta-malas.
Se realmente aparecer perto dos R$ 100 mil, equipado dessa maneira, vai entrar chutando a porta do mercado. Entre R$ 110 mil e R$ 120 mil, ainda poderá fazer sentido pelo espaço, segurança e garantia. Agora, se encostar nos R$ 130 mil, a conversa muda bastante, porque nessa faixa começam a aparecer concorrentes estabelecidos, com rede conhecida e algum histórico nas ruas brasileiras.
No papel, portanto, o DFM Box Urban parece um carro muito interessante. Tem bom espaço, equipamentos de sobra, segurança caprichada e uma garantia agressiva. Porém, ainda faltam três respostas que nenhuma ficha técnica consegue entregar imediatamente: preço, pós-venda e valor de revenda.
Eu torço para que venha barato, não por caridade com uma estatal chinesa gigantesca, mas porque concorrência faz bem para quem compra. Se vier por R$ 99.990, como já foi sugerido, o pau vai torar. Se vier por R$ 130 mil, continuará interessante, mas sem a mesma capacidade de causar terremoto.

Agora quero saber de você: encararia ser um dos primeiros donos de um DFM no Brasil ou esperaria a marca provar que não veio apenas passear?
Um abraço procêis.
