FIONA: O FUSCA 1963 QUE ME TROUXE ATÉ AQUI

Existem carros que passam pela nossa vida como simples meios de transporte. Servem para ir ao trabalho, buscar os filhos, fazer compras e, em algum momento, são substituídos por outro modelo. E existem aqueles que, sem que a gente perceba, começam a ocupar um espaço muito maior. Quando vamos ver, eles estão em fotografias, nas histórias que a família conta à mesa e em lembranças que sobreviveram até mesmo às pessoas que já se foram.
Meu primeiro grande carro foi assim. Ou melhor: não foi o primeiro carro que comprei, mas foi o primeiro automóvel que aprendi a amar. Era um Fusca 1963 verde, que muitos anos depois ganharia o nome de Fiona.
A Fiona entrou na minha vida por volta de 1987. Eu tinha entre quatro e cinco anos e, como meu pai era militar, morávamos em um bairro . Era um lugar muito diferente do que vemos hoje: as casas tinham aquele estilo americano, sem muros, e as pessoas viviam muito mais próximas umas das outras. Nós não tínhamos carro. Para ir aos lugares, dependíamos de ônibus ou da boa vontade de alguém que pudesse nos dar uma carona.

Lembro perfeitamente de um dia em que minha mãe me disse que meu pai voltaria para casa trazendo uma surpresa. Para uma criança, isso era suficiente para transformar a espera em um acontecimento. Já era fim de tarde, por volta das cinco horas, e eu me sentei na frente de casa esperando. Foi então que o vi aparecer na esquina.
Meu pai vinha dirigindo um Fusca verde e buzinava para anunciar a novidade antes mesmo de chegar.
A felicidade que senti naquele momento é difícil de explicar. Talvez porque aquele carro representasse muito mais do que finalmente ter um automóvel na garagem. Era uma conquista para a família. E, sem que ninguém pudesse imaginar, aquele Fusca permaneceria conosco durante praticamente toda a minha vida até a juventude. Eu tinha pouco mais de quatro anos quando ele chegou e cerca de 21 quando nossa história começou a mudar.
Durante todo esse tempo, muita gente passou por dentro daquele carro. Meu pai tinha o hábito de ajudar as pessoas e, por isso, o Fusca carregou amigos, conhecidos, familiares e, provavelmente, histórias que eu mesma já não consigo lembrar. Mas algumas ficaram guardadas de uma maneira tão nítida que basta pensar na Fiona para que tudo volte.
UM CLÁSSICO QUE ERA, ANTES DE TUDO, DA FAMÍLIA
O Fusca sempre teve essa capacidade curiosa de criar uma relação muito próxima com seus donos. Talvez pela simplicidade, talvez pelo jeito peculiar de dirigir, pelo barulho do motor ou pela sensação de que cada unidade parecia ganhar personalidade própria com o passar dos anos.
A Fiona tinha a sua.
Era um Fusca 1963 verde, com interior original, bancos de couro preto e até o rádio antigo embutido. Não havia nada de moderno nele, evidentemente. Nenhuma tela, câmera, sensor ou recurso eletrônico. Mas havia uma identidade que muitos carros atuais, mesmo muito mais sofisticados, não conseguem reproduzir.

Para mim, um dos lugares mais especiais era aquilo que chamávamos de “chiqueirinho”, o espaço atrás do banco dianteiro. Criança sempre encontra uma maneira de transformar o carro em um universo particular e aquele cantinho era o meu. Quando meu pai ia fazer compras, muitas vezes as sacolas ocupavam o banco do passageiro e eu ia feliz no chiqueirinho.
Anos depois, minha filha faria exatamente a mesma coisa.
E talvez esse seja um dos detalhes que melhor expliquem por que determinados carros se tornam tão importantes. O mesmo espaço que fez parte da minha infância passou a fazer parte da infância dela. A Fiona estava ali, atravessando uma geração sem precisar fazer esforço algum.
Quando tive minha primeira filha, meu pai acabou comprando outro carro para ele e me deu o Fusca. Para muita gente, poderia parecer uma troca simples: ele ficou com um carro mais novo e eu com o antigo. Para mim, porém, foi como receber uma parte da minha própria história.
Passei a usar a Fiona para tudo. Ia trabalhar, frequentava a faculdade, resolvia minha vida e levava minha filha. Era um carro que me ajudava no dia a dia e que tinha uma vantagem importante para quem precisava fazer as contas fecharem: gastava pouco.
Mas o tempo não perdoa ninguém, nem mesmo os carros mais queridos. O marcador de combustível da Fiona já estava tão velho que não funcionava como deveria. Abastecer virou quase uma questão de intuição. Eu brincava que andava no “cheirômetro”. Não dava para olhar o painel e saber exatamente quanto combustível ainda havia; era preciso prestar atenção, sentir que estava na hora de ir ao posto e torcer para acertar.
E foi justamente por causa desse detalhe que a Fiona acabou participando do capítulo mais improvável da minha vida.
A GASOLINA ACABOU, MEU MARIDO APARECEU.
Na época, eu morava em uma cidade pequena, onde praticamente tudo ficava perto. Certo dia, minha filha, então com seis anos, queria tomar sorvete. Eu já precisava abastecer o Fusca, mas resolvi aproveitar que a sorveteria ficava a poucos quarteirões do posto. A ideia era simples: parar primeiro, comprar o sorvete e, na volta, seguir para abastecer.
Parecia um plano perfeitamente razoável.
Só que a Fiona decidiu que não.
Na volta, quando faltava apenas uma esquina para chegar ao posto, a gasolina acabou. E lá estava eu, parada, com uma criança de seis anos no banco, chupando sorvete, e um Fusca que simplesmente não tinha mais combustível.
O que eu não sabia era que, justamente naquela esquina, estava acontecendo algo que eu só entenderia muitos anos depois. Meu futuro marido estava na casa de um amigo, bem em frente ao local onde o Fusca parou. Ele e o amigo vieram correndo para ajudar a empurrar o carro até o posto.

Foi assim que conheci o dono do meu coração.
Talvez ele nem se lembre com tantos detalhes quanto eu. Mas eu lembro. E lembro principalmente da ironia maravilhosa daquela situação: passei anos andando de Fusca, usando-o para trabalhar, estudar e cuidar da minha filha, e foi justamente no dia em que a gasolina acabou que aquele carro me colocou diante do homem com quem eu construiria minha família.
Depois, além da minha primeira filha, tive um filho com ele.
Então, olhando hoje para toda essa história, não consigo evitar a brincadeira: se eu tivesse abastecido antes de passar na sorveteria, talvez o Fusca nunca tivesse parado naquela esquina. E se ele não tivesse parado ali, talvez meu marido não tivesse vindo ajudar a empurrá-lo.
A Fiona não trouxe apenas a mim e à minha filha de um lugar para outro.
De alguma forma, ela também trouxe o amor da minha vida até mim.
O DIA EM QUE MEU HERÓI ESCOLHEU O POSTE
Entre tantas lembranças felizes, existe uma que ainda hoje me faz pensar no quanto aquele carro esteve presente em momentos importantes da minha vida.
Eu era criança e meu pai estava levando eu e uma amiga para o balé. Em determinado cruzamento, outro carro entrou de maneira errada e vinha em nossa direção. Meu pai percebeu que a batida poderia atingir justamente o lado onde eu estava.

Em uma decisão tomada em segundos, ele desviou e jogou o lado dele, o lado do motorista, contra um poste.
O Fusca ficou arrebentado daquele lado. Meu pai poderia ter se machucado gravemente.
Mas a batida não me atingiu.
Essa lembrança ultrapassa qualquer discussão sobre mecânica, originalidade ou valor de mercado. Quando penso naquela cena, não lembro primeiro do dano no carro. Lembro do meu pai tomando uma decisão para me proteger.
E o Fusca ficou marcado naquela história como ficou em tantas outras: não como um objeto parado na garagem, mas como parte do cenário da nossa vida.
LEMBRANÇAS
Quando penso na Fiona, não penso primeiro em um Fusca 1963 verde. Penso em mim, sentada em frente de casa, esperando meu pai chegar com uma surpresa; no chiqueirinho, nas compras ocupando o banco do passageiro e na minha filha repetindo uma brincadeira que também havia feito parte da minha infância. Penso no trabalho, na faculdade e em todos os lugares a que aquele carro me levou; no “cheirômetro” e na gasolina acabando uma esquina antes do posto.
Penso, sobretudo, que, sem aquela pane, talvez eu não tivesse parado justamente em frente à casa do homem que se tornaria meu marido, com quem construiria uma família e teria meu filho.
Talvez seja esse o verdadeiro fascínio dos carros antigos: eles não sobrevivem apenas porque são raros, bonitos ou desejados por colecionadores, mas porque continuam guardando histórias.
A Fiona me acompanhou da infância à vida adulta; carregou meus pais, meus amigos e minha filha e, em um dia absolutamente comum, ajudou a colocar meu marido no meu caminho. Por isso, quando alguém me pergunta quanto valia aquele Fusca, eu poderia consultar uma tabela, comparar anúncios ou descobrir quanto um colecionador pagaria por um modelo semelhante.
Ainda assim, essa nunca seria a resposta completa, porque o valor de um carro pode ser calculado, mas
O que ele representa para uma vida inteira, não.
