DUCATI MONSTER 821: ABAIXO DA TABELA, POR QUÊ?

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Eu posso estar enganado, mas tenho a impressão de que essa Ducati é a mesma que o pastor vendeu para um lojista há alguns meses. Se for realmente ela, estamos falando da moto com a qual o pastor levou um tombinho e acabou se ralando todo. Isso aconteceu no começo deste ano — ou no final do ano passado, não me recordo ao certo.
Mas, mudando de pato para espingarda, quero falar sobre uma negociação que achei, no mínimo, curiosa.
Tratava-se de uma Ducati Monster 821 com apenas 8 mil quilômetros rodados. O número, por si só, já causa certa estranheza: a máquina foi fabricada em 2015, portanto, há 11 anos. Isso significa uma média de pouco mais de 700 quilômetros por ano — praticamente uma moto nova, ao menos no hodômetro.
Ainda assim, o pastor Evandro havia anunciado a Ducati por R$ 29.900, cerca de R$ 5 mil abaixo da tabela. Convenhamos: uma Monster 821, com essa quilometragem e por esse preço, é o tipo de anúncio que desperta tanto o desejo quanto a desconfiança.
O comprador, que me pareceu ser proprietário de uma oficina mecânica, foi até a UAI acompanhado de seu filho, Pedro, para negociar essa linda italiana com o meu malvado favorito.
Mas por que uma moto aparentemente tão conservada, com baixíssima quilometragem e fabricada por uma marca tão desejada estava sendo oferecida tão abaixo da tabela? Era apenas uma boa oportunidade ou havia alguma explicação escondida por trás daquele preço?
FIPE
Fui dar uma passeada pelo portal da FIPE e descobri que, de lá para cá, o preço subiu um pouquinho: o morango do amor 821 agora tem valor médio de R$ 35.980.

Quando colocamos a italiana ao lado de algumas rivais do mesmo ano, a proposta de R$ 29.900 fica ainda mais interessante. Em agosto de 2026, a Honda CB 600F Hornet 2015 aparece avaliada em R$ 40.999, enquanto a Yamaha XJ6 N/ABS 2015 chega a R$ 41.783 — respectivamente, R$ 5.019 e R$ 5.803 acima da Ducati.
A Yamaha MT-07 2015, por sua vez, está avaliada em R$ 33.221, ficando R$ 2.759 abaixo da Monster. Ou seja: mesmo com a valorização recente, a Ducati continua posicionada entre a MT-07 e as quatro-cilindros japonesas. E pensar que aquela unidade, com apenas 8 mil quilômetros rodados, estava anunciada por R$ 29.900 — mais barata até que a MT-07. Definitivamente, havia algo nessa catira que merecia uma investigação mais cuidadosa.

PRÓS E CONTRAS
Para fugir daquele velho costume de repetir apenas o que aparece na ficha técnica, fui procurar a opinião de quem realmente convive com a Monster 821. Encontrei relatos de proprietários que utilizam a moto somente nos fins de semana, mas também de gente que roda mais de 100 quilômetros por dia com ela. No geral, a italiana parece fazer jus ao sobrenome Monster — embora, como toda máquina de personalidade forte, cobre um preço por isso.
PONTOS POSITIVOS
Desempenho empolgante: o motor bicilíndrico de 821 cm³ entrega bastante força, principalmente entre médias e altas rotações. Segundo os proprietários, ela começa a acordar por volta das 4 mil rotações e mostra seu lado realmente monstruoso depois das 7 mil. No modo Sport, a resposta do acelerador fica ainda mais direta.
Dirigibilidade e diversão nas curvas: embora não seja a naked mais leve da categoria, a Monster recebe muitos elogios pelo comportamento nas curvas, pela estabilidade e pela precisão. Um proprietário que veio de uma MT-07 considerou a Ducati mais esportiva, potente e bem resolvida, ainda que menos inclinada às “molecagens” e empinadas da japonesa.
Freios e tecnologia: os freios são descritos como fortes e muito eficientes. Os modos de pilotagem e os ajustes eletrônicos também chamam atenção, especialmente em uma moto lançada há mais de uma década. Como disse um dos donos, muita moto apresentada atualmente ainda não oferece o pacote tecnológico que a 821 já entregava naquela época.
Estilo e presença: aqui não tem discussão. O desenho musculoso, o tanque metálico e a identidade italiana fazem da Monster uma legítima “quebra-pescoço”. É aquela moto que o proprietário estaciona, anda alguns passos e olha para trás só para conferir se ela continua bonita. E continua.
Confiabilidade melhor do que a fama sugere: apesar da fama de que toda Ducati é problemática, vários proprietários relataram longos períodos de uso sem defeitos graves. Um deles já havia ultrapassado 66 mil quilômetros utilizando a moto diariamente, enquanto outro mencionou uma unidade com mais de 32 mil quilômetros sem falhas importantes. Isso não significa que toda 821 será impecável, mas mostra que uma unidade bem cuidada e com as revisões em dia pode ser bastante confiável.
PONTOS NEGATIVOS
Calor excessivo: esse foi um dos problemas mais citados. A Monster 821 esquenta bastante, sobretudo no trânsito, e o calor do motor pode incomodar as pernas do piloto. Para passeios de fim de semana isso talvez seja apenas uma característica; para enfrentar congestionamentos diariamente, pode virar uma companhia nada agradável.
Funcionamento áspero em baixa rotação: o motor pode apresentar trancos e respostas irregulares em velocidades reduzidas, mesmo no modo Urban. Alguns donos dizem que é necessário trabalhar mais com a embreagem para manter a condução suave. Não chega a impedir o uso na cidade, mas exige adaptação de quem vem de uma japonesa mais dócil.
Câmbio temperamental: há relatos de dificuldade para encontrar o ponto morto, principalmente com a moto fria ou parada. Alguns proprietários também mencionam a possibilidade de encontrar um “falso neutro” entre as marchas. Em determinados casos, uma regulagem na embreagem ameniza o problema, mas é um comportamento que merece atenção durante o teste.
Peso e raio de giro: embora tenha bom comportamento em movimento, o peso aparece nas manobras lentas e ao empurrar a moto. O raio de giro também não é dos melhores, dificultando retornos apertados e manobras em vagas pequenas.
Manutenção premium — inclusive no preço: peças, acessórios e modificações não são baratos. Além das revisões convencionais, o comprador precisa conferir o histórico da troca das correias e da manutenção do sistema desmodrômico. Uma Ducati barata sem comprovação de manutenção pode rapidamente apresentar uma conta com padrão italiano.
Painel simples para a categoria: nas unidades mais antigas, como a 2015, fazem falta recursos básicos como marcador de combustível e indicador de marcha. Pode parecer detalhe, mas é curioso encontrar tanta tecnologia embarcada e, ao mesmo tempo, precisar controlar a gasolina pelo hodômetro parcial.
No fim das contas, os elogios superam as reclamações. A Monster 821 não parece ser a moto mais econômica, prática ou barata de manter, mas também nunca prometeu ser. Ela entrega desempenho, tecnologia, beleza e, principalmente, personalidade. É uma moto capaz de servir no cotidiano, desde que o piloto aceite o calor, os trancos em baixa velocidade e o custo de manutenção. Para os passeios de fim de semana, porém, o morango do amor parece estar em seu habitat natural.
E aí, tem coragem?
