Câmbio PowerShift: por que o queridinho da Ford é tão malvisto?

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Numa dessas tardes de abril — mais especificamente, numa quarta-feira —, um casal sentou-se diante do meu malvado favorito com uma missão aparentemente simples: trocar sua Ford EcoSport por um Fiat Cronos.

O que eles ainda não sabiam era que o câmbio da EcoSport carregava uma fama… digamos… nada agradável no mundo automotivo.

Ao descobrir que o Pastor Evandro avaliaria sua EcoSport 2016 em R$ 14 mil abaixo da tabela, o cliente naturalmente quis entender o motivo de tamanha diferença. Foi então que veio a explicação: o câmbio PowerShift é conhecido por apresentar problemas que podem custar caro — caro o suficiente para consumir toda a margem de lucro da negociação e ainda deixar um belo prejuízo de lembrança.

Mas será que essa fama é realmente merecida? O que existe por trás de um nome tão moderno e tecnológico quanto “PowerShift”? É justamente isso que vamos descobrir a partir de agora.

AFINAL, O QUE É O POWERSHIFT?

O PowerShift é uma família de transmissões automatizadas de dupla embreagem, com versões de seis e sete marchas, produzidas para equipar diferentes modelos da Ford.

Boa parte dessas caixas foi desenvolvida e fabricada pela Getrag Ford Transmissions, uma parceria entre a própria Ford e a fabricante alemã Getrag. As primeiras versões também contaram com a participação da LuK e chegaram inicialmente ao mercado europeu.

Reprodução – Logotipo da empresa GETRAG – Google Imagens

O nome era bonito, a tecnologia parecia moderna e a promessa era daquelas que convencem qualquer comprador: trocas rápidas e suaves, com uma proposta de eficiência que parecia atraente.

Ou seja: no papel, era quase o casamento perfeito. Quase.

Dois câmbios trabalhando dentro de um só

Para entender o PowerShift sem precisar fazer um curso de mecânica, imagine dois câmbios manuais trabalhando juntos dentro da mesma caixa. Cada um possui sua própria embreagem e fica responsável por um grupo de marchas.

Na versão de seis velocidades, uma das embreagens cuida das marchas ímpares: primeira, terceira e quinta. A outra fica responsável pelas marchas pares: segunda, quarta e sexta.

Reprodução – Batepapoautomotivo.com.br – Ilustração do Câmbio Powershift Aberto

Enquanto o carro anda em primeira, por exemplo, a segunda marcha já fica preparada para entrar. Quando chega o momento certo, uma embreagem se solta e a outra assume o serviço. Enquanto o veículo segue em segunda, a terceira já está ali, nos bastidores, esperando sua vez. E assim o processo vai se repetindo.

Na teoria, esse sistema evita a perda de eficiência dos tradicionais conversores de torque e permite trocas mais rápidas, suaves e econômicas. É como se o câmbio tentasse adivinhar qual será o seu próximo movimento e deixasse tudo pronto com antecedência.

Tecnológico, não é?

O problema é que, no mundo dos carros, existe uma distância considerável entre aquilo que funciona perfeitamente na prancheta dos engenheiros e aquilo que precisa enfrentar trânsito, calor, ladeiras e milhares de quilômetros nas mãos dos motoristas, por vezes bem ruins, diga-se de passagem.

E ONDE A ECOSPORT ENTRA NESSA HISTÓRIA?

As versões do PowerShift desenvolvidas para veículos de menor torque — entre elas a transmissão 6DCT250, também conhecida como DPS6 — utilizavam embreagens secas e um sistema de acionamento controlado eletronicamente.

Criado com IA – Transmissão 6DCT250

Foi justamente essa configuração que apareceu em modelos bastante populares da Ford, como Fiesta, Focus e EcoSport. E aqui começamos a entender por que o Pastor Evandro olhou para aquela EcoSport 2016 e enxergou bem mais do que um SUV usado. Ele também viu um câmbio famoso por transformar uma negociação aparentemente lucrativa em uma possível dor de cabeça.

Afinal, toda essa tecnologia era realmente confiável ou a Ford tentou sofisticar demais uma solução que ainda não estava pronta para encarar a vida real?

PROBLEMAS DOCUMENTADOS E MINHA OPINIÃO

Há um registro técnico que ajuda a separar a fama do câmbio dos problemas documentados. O boletim Ford TSB 13-9-4, de 2013, descreve trepidação intermitente da embreagem ao sair com aceleração leve em determinados Fiesta 2011–2014 e Focus 2012–2014 com DPS6. O documento também menciona a possibilidade de vazamento de fluido na região da embreagem.

Esse boletim trata dos modelos e anos especificados nele: não é um diagnóstico da EcoSport desta negociação, nem comprova que todo PowerShift apresentará a mesma falha. Para avaliar um exemplar usado, o histórico de reparos e uma inspeção especializada são mais úteis do que presumir o estado da transmissão apenas pela reputação.

Reprodução – Interna da linda Ecosport – Google Imagens

Do outro lado estão aqueles que não querem saber de explicação, manutenção preventiva ou promessa de oficina honesta.

Sendo sincero com vocês, pra mim, os relatos de falhas já são suficientes para eliminar qualquer carro equipado com PowerShift da lista de compras. Essa é uma preferência pessoal diante do risco, não uma conclusão sobre o estado de cada carro.

No fim das contas, minha impressão resume a história dessa transmissão: quando funciona, encanta pela suavidade e pelo desempenho; quando apresenta problemas, transforma toda aquela tecnologia em uma conta capaz de tirar o sono — e uma boa parte do valor de revenda do carro.

Te vejo no próximo encontro.

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