CRÉDITO: EDUCAÇÃO FINANCEIRA E A ASSOMBRAÇÃO QUE PERSEGUE O POVO BRASILEIRO

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Uma família se sentou diante do meu malvado favorito com um objetivo muito claro: comprar uma Chevrolet S10. Um carro para trabalhar, viajar e atender às necessidades da família — algo que, convenhamos, nem deveria ser tratado como um sonho distante.

Mas, no Brasil, até aquilo que deveria ser básico tem se tornado cada vez mais difícil de alcançar. Com o orçamento apertado, as dívidas acumuladas e o crédito cada vez mais restrito, milhões de brasileiros estão descobrindo que não basta ter renda e disposição para pagar: é preciso, antes de tudo, conseguir a aprovação do sistema financeiro. Uma reportagem publicada pelo portal g1, em agosto deste ano, ajuda a dimensionar a gravidade desse cenário.

Na loja, até então, tudo caminhava bem. A família havia escolhido a S10 e chegou o momento decisivo: simular o financiamento de parte do veículo. Foi quando Gabriel — meu vendedor preferido e também o mais doido da UAI — olhou para o pastor Evandro e soltou a frase que mudou completamente o rumo da negociação:

— Não abriu tela.

Reprodução – Jusbr – Pedido Indeferido

Traduzindo do idioma das revendas: o banco não liberou crédito para o cliente.

Ainda havia uma última possibilidade. O pastor sugeriu que o financiamento fosse tentado no nome de algum parente. A resposta, porém, veio rápida, seca e revelou que o problema era muito maior do que aquela negociação:

— Todos com o nome sujo. Tudo sujo!

Naquele momento, a história deixou de ser apenas sobre uma família que não conseguiu comprar uma S10. Ela passou a representar a realidade de milhões de brasileiros que trabalham, precisam de um veículo, mas encontram as portas do crédito fechadas.

Afinal, como chegamos a esse ponto? Por que tantas famílias estão endividadas e impedidas de financiar até mesmo um carro usado? Vem comigo, porque agora nós vamos entender as raízes dessa crise financeira que assombra o povo brasileiro.

DIFICULDADE

DIFICULDADE

Em um país marcado pela dificuldade financeira, onde a mistura do prato é, muitas vezes, o bom e velho ovo, não é novidade que a população passe vontade. Eu mesmo passo até hoje — e não tenho vergonha nenhuma de admitir.

Aos 32 anos, tive apenas três motos, todas usadas: uma Honda Falcon 2007 (meu aquecedor de pernas), uma Yamaha Factor 125 2009 e uma Titan 150 2011, que, inclusive, continua comigo até hoje. Graças a Deus, nenhuma delas foi adquirida por meio de financiamento.

Mas você acha que eu estou pleno, completamente satisfeito e sem desejar mais nada?

De maneira nenhuma.

Meu sonho sempre foi ter uma XT 660. Sim, o famoso cavalo de aço. A lendária meiota. O problema é que eu também sei fazer conta: se eu comprar minha XT agora, existem grandes chances de o quadro difícil que já vivo ficar beeeem mais difícil.

Não pretendo entrar profundamente na minha realidade financeira, mas, considerando que uma parcela enorme da população brasileira ainda paga aluguel e não possui a própria casa, acredito ter tomado as decisões certas até aqui. Conquistei, pelo menos, um teto para chamar de meu — meu e da Caixa Econômica Federal, naturalmente.

A XT continua sendo um sonho. A diferença é que aprendi que nem todo sonho precisa ser realizado imediatamente, principalmente quando a conta chega antes da felicidade.

Feito com IA para ilustrar como funciona a minha consciência

Mas, então, qual é o problema da sociedade?

Na minha opinião, nem todo mundo consegue segurar as próprias vontades. E não estou falando apenas de necessidade. Estou falando de desejo, prazer, aparência e status. Da vontade de chegar à vila com um veículo melhor e perceber os olhares acompanhando. Já pensou? Você estaciona o carrão na porta, desce devagar e, por alguns minutos, sente que venceu na vida.

O problema é que o vizinho vê o carro, mas não vê o carnê.

Ele enxerga a roda grande, o banco de couro e o brilho da pintura. Não enxerga as 48 ou 60 parcelas, os juros, o seguro, a manutenção, o combustível e muito menos as noites de preocupação quando o dinheiro fica curto.

Reprodução – Google Imagens – Carnê

Também seria injusto colocar toda a culpa nas costas do consumidor. Nós vivemos cercados por propagandas que transformam desejo em necessidade. As redes sociais exibem apenas as conquistas, nunca os boletos. As instituições financeiras, por sua vez, oferecem a sensação de que tudo cabe no bolso, desde que a pergunta seja apenas: “Quanto você consegue pagar por mês?”

É nesse ponto que mora o perigo.

Quando alguém deixa de perguntar quanto aquilo realmente custa e passa a olhar somente se a parcela cabe no orçamento, o crédito deixa de ser uma ferramenta e começa a se transformar em uma armadilha. A pessoa não compra apenas um carro: ela compromete uma parte do próprio futuro para sustentar uma satisfação do presente.

E basta um imprevisto — a perda do emprego, uma doença, um conserto inesperado ou qualquer despesa fora do planejamento — para aquela conquista estacionada na garagem se tornar uma fonte permanente de preocupação.

Talvez o maior desafio do brasileiro não seja deixar de sonhar. Seja aprender a conviver com o sonho sem permitir que ele destrua aquilo que já foi conquistado.

Vejo vocês no próximo financiamento, digo. Quer dizer, no próximo post.

Fui

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